Um dia Perfeito

Era uma vez...
Não...
Imagina só começar assim...
Este não é um conto de fadas.
É um conto de Rainha.
Pois foi exatamente assim que ela se sentiu ao fim
deste dia.
Comecemos novamente então:
Este não era e nunca seria um dia como outro qualquer.
As dores que ela sentia, começavam a se manifestar em intervalos de tempo menores.
Desde a noite anterior, quando apareceram, desencadearam muita apreensão e ansiedade.
Finalmente chegara o grande dia.
O dia de seu milagre mais precioso.
O dia de um dos milagres mais lindos que Deus permitiu aos seres humanos.
O dia do nascimento de uma criança.
O dia do nascimento de seu primeiro filho.
Quanta alegria!
Quanta espera!
Foram 9 meses de preparo, cuidado, escolhas, sentimentos, enjoos, azias, noites mal dormidas quando a barriga já não permitia conforto, emoções desequilibradas que levavam do riso ao pranto em décimos de segundo, encantamento ao sentir aquele pequeno ser se desenvolvendo ali dentro.
Tão seu...
E quando vieram os chutes?
Nossa! Que sensação inexplicáel...
Mas agora era chegada a hora. Enfim, o grande dia.
Faltava pouquíssimo para ver o rostinho de seu bebê.
Faltava pouquíssimo para descobrir do que o amor é capaz.
Faltava pouco.
- Será que posso tomar café? - ela pergunta a seu marido. O médico havia a orientado para ir pela manhã ao hospital fazer o internamento.
- Eu acho que sim. Acho que ele não vai fazer o parto agora de manhã.
E assim, depois do café, eles pegaram as malas da mamãe e do bebê e saíram.
No caminho, passaram na casa de sua mãe. Registraram o momento com uma foto, se despediram recebendo bênçãos e finalmente foram.
Foram a pé mesmo, você acredita?
Apesar das dores, contrações que vinham e iam, ela estava muito bem.
Após chegarem ao hospital e preencher toda a papelada na recepção, foram encaminhados à suíte, onde enfim, passaria os próximos três dias.
Logo chega uma enfermeira e a ajuda a se trocar, colocando aquela charmosa camisola de hospital. Confere se a depilação está em ordem e os deixa.
Depois, um enfermeiro vem e a prepara, colocando soro com oxitocina. É um momento bem tenso, pois a veia de seu braço se rompe e então tudo é colocado em sua mão.
A manhã começa a ter a duração de um dia inteiro. As horas não passam.
A tensão só aumenta.
Perto do meio dia o médico chega no quarto e pergunta se está tudo bem e se ela já almoçou.
- Não comi nada. Não sabia se podia - ela responde.
- Vou mandar trazer uma canja. Vamos fazer o parto a tarde - diz o médico e sai.
Almoçada, ela continua deitada em seu leito.
Conversas amenas é o que se tem dentro do quarto.
O tempo caminha em câmera lenta.
Quando se aproxima das três horas da tarde, uma enfermeira adentra o quarto para buscar a parturiente e encaminhá-la ao centro cirúrgico.
O casal despede-se, e durante o trajeto até a sala, a futura mamãe ora a Deus, suplicando que tudo ocorra conforme a Sua vontade.
Já na sala de cirurgia, lhe é orientado que se sente sobre a mesa, afastando bem o bumbum para trás e se curvando para a frente.
Ela sente medo de cair.
Uma das enfermeiras que assistirá o parto se coloca na sua frente, segura sua mão e pede para que relaxe.
O medico então se aproxima, explicando que irá aplicar a anestesia.
- Solta o corpo bem para frente e relaxa - diz ele.
Enquanto lhe é aplicada a anestesia, ela aperta firme a mão da enfermeira, sem nem pensar se a estaria machucando.
Logo acaba.
Ela é auxiliada a se deitar e assim se começa os procedimentos para o parto.
Um pano é colocado na sua frente, impedindo que veja o se passa logo abaixo.
Seus braços são colocados em forma de cruz e amarrados, e também é colocado oxigênio sob seu nariz.
- Tá esquentando a perna? - pergunta o médico.
Ela só balança a cabeça afirmando.
- Mexe o dedão do pé - pede ele.
Ela tenta, mas não consegue. Seu corpo, de uma certa altura para baixo, já não responde mais.
Aí então, começa a cirurgia.
Milhares de coisas e nada ao mesmo tempo se passa pela cabeça dela.
Ela olha para o aparelho que ilumina a mesa de cirurgia e consegue enxergar um pouco do que se passa ali, mas desvia o olhar.
O médico vai conversando com ela, perguntando se esta tudo bem.
Ela só confirma.
Pouco tempo depois vem o choro.
Ele nasce.
Uma emoção intensa, sem palavras e explicações, toma a alma dessa mamãe.
Uma lágrima corre de seus olhos.
Quando a enfermeira pega seu filho e o leva para o berço aquecido, a fim de fazer todos os procedimentos padrão, ela só fica observando.
Que bebê mais lindo. Pele rosada, todo sujinho, já não chora mais.
De repente, algo estranho acontece com ela. Começa-lhe faltar ar.
- Eu não consigo respirar - ela diz pra enfermeira que está ao seu lado.
A enfermeira então ajusta o oxigênio sob o nariz dela enquanto pede que fique calma e respire devagar.
- Tu quer dormir - pergunta o médico.
Ela nega com a cabeça.
- É bom, assim tu relaxa.
Ela nega novamente.
Não queria dormir. Queria ficar olhando seu bebê. Admirando esta obra prima de Deus que acabou de nascer.
Sua situação foi melhorando, ela foi se acalmando e enquanto namorava seu filho, a cirurgia foi sendo finalizada.
A levaram novamente para seu quarto. Seu marido estava a sua espera, recebendo-a com um sorriso.
Viu que sua mãe também estava ali.
Os enfermeiros a colocaram na cama. Era uma sensação estranha não sentir parte de seu corpo e o ver sendo carregado assim.
Vários cobertores foram colocados sobre ela. Já havia sido alertada das possíveis reações da anestesia.
Por misericórdia Divina, não teve nenhuma.
Ela foi orientada a não levantar a cabeça em hipótese alguma, até que fosse liberada.
Seu marido e sua mãe lhe falavam do encanto que era seu bebê, e que logo o trariam para o quarto.
Quando ele chegou, foi colocado no berço aquecido, mas não o deixaram perto dela.
Passado algum tempo, chega seus sogros.
Todos se deliciam com aquela gostosura.
- Já colocaram ele perto de você? - pergunta minha sogra.
- Ainda não - eu digo.
Ela então o pega e coloca juntinho de sua mãe.
Que encontro maravilhoso!
A quanto tempo sonhava com esse momento.
Mãe e filho se reconhecem, se aconchegam. Há muito amor envolvido.
Com certeza os anjos estavam ali, melodiando este encontro.
Naquele momento ela se sentiu a melhor das criaturas.
Ela se sentiu poderosa.
Ela se sentiu abençoada.
Ela se sentiu amada.
Ela se sentiu como uma verdadeira rainha, cujo maior tesouro estava ali, encostadinho em si.
E ela agradeceu. Silenciosamente em seu coração, agradeceu a Deus por permitir aquele momento.
Agradeceu a Deus por este presente.
Agradeceu a Deus por este dia perfeito.


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