Ressuscitando Memórias

Despertei em minha cama, assustado, tinha a sensação de estar dormindo por décadas e ao mesmo tempo, a sensação de que algo estava me faltando... Levantei da cama, tendo dificuldades para andar, minhas pernas estavam um pouco dormentes e meu peito estava travando, como se aquele ar, não sei, fosse diferente. Consegui chegar ao banheiro, me apoiei sobre a pia e me olhei no espelho. Eu estava mais alto, o cabelo estava amarrado, estavam maiores e escuros, estava com barba e sem óculos, portanto estava enxergando embaçado. Joguei uma água no rosto, e me virei, voltando para o quarto.
Minha cabeça latejou e minha visão escureceu, cambaleei para o lado e me agarrei a porta do banheiro. A dor era insuportável, como se alguém estivesse espremendo minha mente com as próprias mãos... Quando finalmente passou, eu me recuperei, abrindo os olhos, e olhei o quarto ao meu redor... Era um quarto bonito, a cama estava presa ao teto por cordas, havia uma janela de vidro atrás da minha cama e através dela eu pude ver um céu vasto de estrelas...
Parei por alguns segundos, a encarando, e percebi que eu não sabia que lugar era aquele, ou o que eu estava fazendo ali, ou... Quem eu era.
Cambaleei para o lado novamente e dessa vez, não tinha onde me apoiar, cai no chão e bati a cabeça na beirada da cama...
— Bom dia, você dormiu por dois dias, hein? — Uma mulher alta e morena, com o cabelo longo na altura da cintura, trançado e com um vestido longo, estava de costas para mim, olhando para a janela que ficava na parede ao lado esquerdo do quarto.
— Quem é você? Onde eu estou? — Foram as primeiras palavras que saíram da minha boca, mas o que eu realmente queria saber, não era nada disso...— Quem eu sou?
— Bem, prazer, eu me chamo Piper, sou sua cuidadora. Você está no Amazonas, num refúgio criado para aquelas pessoas que buscam uma vida melhor. Sentimentos melhores. — Ela tinha uma voz calma e serena, por alguns instantes, fez com que eu quisesse dormir novamente.
— E quem sou eu? — Pergunto me sentando à beirada da cama.
— Você? Você se chama Victor. Tem vinte e seis anos, um escritor reconhecido e veio até nós em busca de paz.
— Só isso? Não há mais nada sobre mim que você saiba? Família? Amigos?
— Você não nos informou nada disso quando, chegou aqui, essas informações, foram as únicas que recebemos de você. Antes do acidente, você costumava citar um nome... Larissa... Luan... Letícia. Isso.
— Que acidente? — O nome Letícia, me trouxe sentimentos fortes... Eu não sabia como descrever, então achei melhor não dizer nada a ela.
— Você estava fazendo uma trilha, com mais algumas pessoas e um de nossos guias, se afastou deles, e estava tirando fotos, à beira da cachoeira, escorregou, batendo a cabeça numa rocha e caindo na água. Por sorte, nós o achamos rapidamente e conseguimos te trazer para cá... Nossos médicos, disseram que você sofreria perca de memória por conta do impacto que sofreu, e por conta de toda a água que entrou, quando caiu da cachoeira. Você... Ficou em coma por um tempo... Achamos que não acordaria mais...
— Por quanto tempo? — Perguntei nervoso, me sentindo perdido, por não saber mais nada, mas, eu sentia que tinha uma família, uma vida antes de tudo aquilo... Pessoas que se importavam comigo.
Piper ficou em silêncio, e virou-se para mim, eu podia ver tristeza em seus olhos... Mas não me importava, eu queria saber, eu precisava saber...
— Quanto tempo! — Me levantei da cama, agarrando-a pelos ombros.
— Seis anos... — Os olhos dela se encheram de lágrimas, eu a soltei e me afastei. Minhas mãos estavam tremendo, senti o choro e a raiva subirem pela minha garganta, me ajoelhei no chão, sem reação, sem conseguir falar, pensar...
— Não! NÃO! — Comecei chorar, meus braços tremiam e eu não conseguia se quer leva-los ao meu rosto... Seis anos. Seis anos dormindo, longe de casa, longe de quem eu amo, longe da família e dos amigos que eu sentia ter, longe da... Letícia... De repente, eu desmaio e caio no chão, e lembranças, imagens surgem em minha mente: Uma mulher, de cabelo cacheado, com os olhos castanhos, corpo tatuado, e lindo, sorria para mim e me chamava de amor, caminhava em minha direção usando apenas, uma calcinha e um sutiã, se apóia sobre a cama, e me beija lentamente... A imagem muda, e eu vejo essa mesma mulher, sorrindo para mim enquanto tirava fotos, nós estávamos na varanda de uma casa, a casa era linda... Grande, de telhado, sua cor era azul com várias flores e plantas a frente... Ela se vira pra mim, e me beija novamente...

— Victor... —Em Parati, no Rio de Janeiro, você desperta na cama, assustada, e com a respiração ofegante... Começa chorar — Victor!
O Severo, aparece no quarto, abrindo a porta correndo e te abraçando, perguntando o que está acontecendo... Você continua chorando por mais alguns minutos, sem conseguir falar ou pensar... Quando finalmente se solta do Severo, e acaricia o lado esquerdo da cama, vazio...
— O Victor... Severo, ele tá vivo. Eu.. não sei como, nem onde... Mas eu sei que tá, e ele precisa de nós. Eu sinto isso... — Você continua chorando e pega uma foto nossa, na cabeceira ao lado esquerdo da cama. Na foto estávamos nós três, Severo, você e eu, estávamos num shopping, com vários hambúrguers à mesa, e sorrindo.. felizes. — Ele tá vivo...
— Calma... Respira... O que aconteceu? — Severo pergunta se arrumando ao seu lado, e limpando seu rosto.
— Eu não sei... Eu tive um sonho com ele... No sonho, eu vi ele chorando de joelhos no chão, e ele chamou o meu nome... Mas ele, ele tava diferente... Mais alto, com barba, cabelo comprido... Mas era ele Severo. Eu sei que era. — Você olha para a foto, e alisa o meu rosto, chorando... — Eu não devia ter deixado ele ir embora...
— Calma, você não teve culpa de nada, nenhum de nós três tivemos... Toda família tem crise, e a nossa estava passando por uma, ele estava passando por uma e precisava de um tempo, acontece que, durante esse tempo, ele acabou sofrendo o acidente...
— Não era ele naquele carro... Ele tá vivo. Aquele corpo não era dele... — Você estava mais calma... Conseguia respirar e pensar.
— Eu vou buscar uma água pra você, e você tenta descansar novamente... Tá? Mais tarde, com calma, nós tentamos falar sobre isso...
— Tá... — Você sabia que ele não tinha acreditado em você, mas não o culpava, eu estava 'morto' à seis anos, até onde vocês sabiam, eu tinha sofrido um acidente de carro, onde o carro teria explodido e meu corpo totalmente queimado, a única coisa que conseguiram usar para me identificar foi nossa aliança... Mas, eis a parte que vocês não sabiam... Meu carro tinha sido roubado, logo após eu sair de casa, e o ladrão tinha levado tudo o que era meu, até nossa aliança ele tinha me obrigado a dar... Mas a nossa briga tinha sido tão horrível, que eu só queria sumir.. ainda tinha meus documentos, então pude viajar... Fui a um retiro numa pequena tribo no Amazonas, pretendia passar apenas uma semana lá, até sofrer o acidente...
Você nunca se conformou com isso... Uma parte de você sempre lhe disse que eu estava vivo. Nunca tinha perdido a esperança.
Quando o Severo voltou, você contou a ele que estava decidida a me procurar... E foi isso que fez. Por semanas. Voltou a me procurar em todos os lugares.. espalhou cartazes, perguntou a pessoas e mais pessoas sobre mim... Já estava quase desistindo novamente por não ter nenhum tipo de resultado. Voltou pra casa, após mais um dia me procurando e encontrou o Severo, sentado, mexendo no computador.
— Eu tive uma ideia... Você ainda lembra, ou tem em algum lugar a senha da conta no banco do Victor?
— Sim, por que?
— Ele tinha um registro que mostrava todos os gastos dele, o horário que foi gasto, o dinheiro e a data... Se ainda tiver dados de 6 anos atrás, nós podemos ver os gastos dele naquele mês, e talvez, acharemos ele...
Aquilo não tinha passado pela sua cabeça... Então, você viu o meu último gasto...
— Aqui. Aqui. Dia 16/7/ 2021. Severo... Ele tá vivo. O Victor tá vivo. Ele tá em Manaus. — Você começou chorar e abraçou o Severo. Os dois levantaram na mesma hora, e foram fazer as malas.
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E eu acordo.
— Letícia... — Ainda estava no chão, Piper estava agaichada ao meu lado, segurando minha cabeça, e aliviada por eu estar acordado... — Eu... Eu lembrei... Lembrei da minha mulher. Eu preciso voltar pra casa...
— Calma, você está em coma à seis anos... Me conta o que você lembrou... — Disse ela me ajudando a levantar.
— Eu lembrei da minha esposa... Letícia. Eu tenho uma esposa... Eu tenho uma família, Piper! Preciso voltar pra casa... — Me levantei, procurando um jeito de sair dali...
Tive que esperar alguns dias, de recuperação e aguardando para que eu finalmente pudesse sair dali, e voltar pra casa... Após esses dias, eu finalmente podia ir embora dali.
No meu último dia ali, caiu uma baita tempestade, então eu teria que aguardar até o dia seguinte para poder ir embora, mas decidi acertar todos os gastos que eles haviam tido comigo ali...
Você e o Severo estavam em Manaus, a alguns dias já, me procurando... Severo tinha baixado um programa no celular dele, que avisaria qualquer gasto recentemente meu, e no momento que eu passei o meu cartão no retiro, ele recebeu a mensagem.
— Letícia, o Victor acabou de pagar uma conta! Num retiro, aqui mesmo em Manaus. Eu só... Não sei onde fica isso.
— Agora? Depois de seis anos? Como?..
— Eu também não sei. Mas precisamos chegar lá, antes que ele vá embora...
Vocês pesquisaram sobre o retiro na internet e descobriram onde era. Nem mesmo quiseram esperar a tempestade passar, alugaram um carro e foram até lá.
Na manhã seguinte, eu estava me despedindo de todos, e pronto para partir. Um motorista iria me levar até o aeroporto, eu tinha achado em minhas coisas, a passagem que eu tinha usado pra chegar ali.. Rio de Janeiro. Era lá que minha família estava.
— Victor? É mesmo você? — Eu me viro, já ouvira essa voz antes, era... Letícia... Meus olhos se enchem de lágrimas, quando eu me viro e vejo a mulher das minhas lembranças, ainda mais linda pessoalmente... Vejo seus olhos se encherem de lágrimas, e corro até você... Nos beijamos... Quando meus lábios tocam o seu, eu sinto um calor, um choque percorrendo o meu corpo, e tudo volta... Minhas memórias, as memórias do por que eu estava ali, e quem eu era. Tudo... Então eu te solto, e só três palavras conseguem sair da minha boca.
— Eu amo você... — Você olha nos meus olhos, chorando muito...
— Eu também amo você!