Casualidade

Uma tarde se encontraram, em um desses becos da vida, onde olhares foram cruzados, sorrisos trocados e depois dos cumprimentos, dos “de onde você é?” e ” o que você faz?” surgiu algo há mais entre meros desconhecidos. Ele era bonito, encantador pode-se dizer; ela, lhe fitava com seu ar misterioso, seus cabelos cor de fogo que brilhavam ao sol; tinha um charme natural, inegável, daqueles que te laçam a alma e você nem vê.
Se esbarraram algumas vezes, ele sempre lá a procurá-la na mesma mesa de bar, a personificando em cada pessoa, sonhando em revê-la, se iludindo com as lembranças que ela deixava à cada gole de cerveja. Ela, que sumia sem motivo aparente, do nada ressurgia para confundir seus pensamentos, embaralhar, exaltar, inundar qualquer sentimento que ele por ventura viesse a ter.
Não parecia justo, um jogo em que a balança sempre pendia pra um lado só, onde ele se doava, ela fugia, ele se doía, ela lhe arranhava. A moça o tinha por carência, mais uma meia pra lhe aquecer os pés num dia frio, uma entre tantas outras guardadas numa gaveta, que usava e desusava a hora que bem entendesse.
Certa noite, com o coração batendo forte, a viu sentada num canto do bar sozinha, inquieta a olhar o relógio, e quando finalmente tomou coragem de ir em sua direção, viu um moço, de cabelos dourados sentar ao lado dela, até ele tinha de admitir que o sujeito não era de todo ruim, melhor do que ele próprio até temia.
Enraivecido de ciúmes, estufou o peito e cego, foi tomar satisfações. Eis que ouviu ” nós não temos nada, eu gosto de você, mas não sou de ninguém”.
Ah! Ele não podia acreditar no quanto ela era banal. Vadia sem coração, tão fria…Como algo tão meigo e atraente não passava de uma armadilha pra trouxas? Que encantava, desencantava sem a menor culpa e que agora o quebrava com tais palavras, desfilando com outro alguém, lhe fazendo querer morrer com cada toque, cada palavra, cada sussurro que não era em seu ouvido, mas de outro.
Com o passar do tempo, ela continuou, perdida entre tantos amores, iludindo um dia cá, outro lá, ocupando seus dias com romances que eles chamam de “estação”. Ele, humilhado, desiludido, ainda procurava algo pra preencher o vazio dos seus dias e enquanto não achava, se sustentava nas memórias do dia em que se conheceram. Ás vezes fechava os olhos e em um segundo era como se novamente pudesse ver seu vestido azul bordado, o sorriso tímido de quando se viram pela primeira vez e formalmente se apresentaram:

Ele - “Oi, meu nome é Amor e o seu?”

Ela - “É Casualidade.”

Michelly Kinai
Crédito da imagem: http://www.topimagens.com